Prevenir o excesso de peso e obesidade: prudência na comunicação

Beja Santos: A Lei n.º 30/2019, de 23 de abril, apresenta-se como uma medida destinada a impedir a banalização publicitária de alimentos e bebidas indesejáveis num regime alimentar que se deve pautar pelas cautelas num consumo de gorduras e açúcares, o seu excesso ou a sua imoderação podem propiciar crianças e jovens corpulentos e obesos. O excesso de peso e obesidade são definidos como uma acumulação anormal ou excessiva de gordura corporal que pode prejudicar a saúde. Um jovem corpulento ou obeso arrisca vários tipos de situações sociais, psicológicas, a prazo laborais e as de saúde são de grande escala. Pense-se na estigmatização e na discriminação das pessoas com excesso de peso, o tratamento cruel a que são sujeitas na escola ou na roda dos amigos nas brincadeiras, que nem se interrogam se aquela obesidade tem ou não tem fatores hereditários, o gorducho está sujeito a toda a zomba, a comentários desagradáveis e a certas formas de exclusão social.

Há igualmente tratamentos diferenciados para os corpulentos e obesos pelas seguradoras, nos transportes públicos, na compra de vestuário. Os meios de comunicação têm tendência a dramatizar a situação, falando do excesso de peso e da obesidade, falam de epidemia galopante, de um fardo para os sistemas de Saúde, em números alarmantes, é uma comunicação que apresenta muitas vezes a obesidade em termos de responsabilidade individual. Porque estes erros de comunicação vão insidiosamente contribuir para a rotulagem das pessoas gordas como desviantes, condenáveis, abre-se uma clivagem entre aqueles que procuram estilos de vida saudáveis e estes corpulentos e gordos que são completamente negligentes. Estes corpulentos e obesos são depois um nicho apetitoso do mercado para as indústrias agroalimentares, para a cosmética e para a indústria farmacêutica, todos usam argumentos de venda para a perda de peso, para o retorno à forma ou adelgaçamento da silhueta, apresentam-se soluções miraculosas nas parafarmácias.

Mandam as regras da comunicação para a saúde que se deve agir mais sobre as condições de vida que sobre os comportamentos individuais. Pôr acento tónico em que a corpulência não é mais do que uma questão de vontade é um erro tremendo, há outros fatores a ter em conta. E quando há estigmatização social há mesmo pessoas que desenvolvem perturbações de comportamento alimentar e fenómenos de compensação, caso da anorexia e da bulimia, acabam por se sentir desencorajados, abandonam a atividade física, relaxam-se. É importante encorajar uma mudança de olhar sobre o excesso de peso, difundir-se uma visão mais global das causas do excesso de peso e da obesidade para alargar a compreensão da problemática, agir sobre as representações sociais do excesso de peso, o que é possível fazer pela educação, pelo ensino, pelos meios de comunicação social, pelas campanhas de promoção da saúde. Falar em epidemia é completamente errado, é como apresentar o obeso como um doente potencialmente contagioso. Não se deve ignorar a obesidade, mas chegou o tempo de abordar a problemática do peso exaltando os valores das condições de vida. No nosso tempo, é a janela que se abre para acabar com a estigmatização do corpulento e do obeso.

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