Refugiados da II Guerra Mundial nas Caldas da Rainha

Beja Santos

“Refugiados da II Guerra Mundial nas Caldas da Rainha (1940-1946)”, por Carolina Henriques Pereira, Edições Colibri, 2017, é um estudo académico à volta das centenas de refugiados que tiveram residência fixa na órbita de uma cidade termal muito procurada. Tudo começou na Primavera de 1940, os exércitos alemães avançaram vitoriosamente até a França capitular, uma onda de fugitivos alemães, franceses, belgas, polacos, checoslovacos, entre outras nacionalidades, na sua maioria de origem judaica, avançaram para os Pirenéus à procura de salvação e também em demanda de um barco para a América. Como escreve Irene Vaquinhas no prefácio, “a autora procede a uma análise profundamente original e criativa, ao cruzar a história política com a história social e com a história da vida quotidiana. Com rigor e minúcia, resgata memórias de uma cidade termal que de repente é confrontada com centenas de estrangeiros em fuga, não obstante o município das Caldas da Rainha ter no seu passado próximo um relevante histórico de receção a refugiados de conflitos armados, a exemplo dos Boers, nos inícios do século XX, de prisioneiros alemães, no tempo da I Grande Guerra e de espanhóis fugidos á Guerra Civil entre 1936 e 1939”.

Carolina Pereira começa por nos apresentar a vastíssima bibliografia sobre o tema dos refugiados em Portugal e contribui logo depois para equacionar, neste preciso momento em que a Europa de debate com uma crise migratória sem precedentes, com o fenómeno dos refugiados que precederam o triunfo alemão na Europa Central, durante alguns anos, convindo não esquecer que no termo do conflito a Europa em ruínas se debateu com convulsões populacionais que atravessaram o Norte, o Centro e Sul da Europa, deixando feridas e sofrimento à escala insuportável. Passa em revista o apoio internacional aos refugiados e como elas operaram em Portugal. Trabalho ingrato e nem sempre bem-sucedido, como anota a autora: “Apesar da aceitação de Salazar para que estas organizações levassem a cabo as suas responsabilidades em território português, estas tinham que lidar, na maior parte dos casos, com dificuldades como a obtenção de vistos. O regime salazarista não atuava diretamente no auxílio aos refugiados, uma vez que os dinheiros públicos não serviam para pagar as necessidades dos deslocados. Apenas permitia a sua passagem e estadia condicionada no país e, simultaneamente, autorizava os organismos internacionais atuantes em Portugal a prestarem auxílio direto e indireto. O objetivo de Salazar passava por transmitir uma imagem de Portugal misericordioso e hospitaleiro permitindo ao governo português sobressair no pós-guerra perante outros países europeus que nada tinham feito em prol da sobrevivência destas pessoas e evitar a todo o custo a penetração de ideias vanguardistas num país marcado pelo conservadorismo e pela ordem”.

Estima-se que o número de refugiados em trânsito no território português durante a guerra tenha atingido um valor superior a 100 mil, mas o verdadeiro número não se encontra ainda determinado. Para a historiadora Irene Pimentel o mais correto é apontar para 50 mil refugiados, considerando o Verão de 1940 como o momento principal deste fluxo emigratório. Lisboa vai aparecer referenciada como um oásis para quem estava em vias de perder a vida. O regime não queria nem tinha condições de ter toda esta gente concentrada na capital, criaram-se residências fixas, localidades de permanência obrigatória, os refugiados não se podiam movimentar sem autorização da polícia política num raio superior a 3/5 km e eram obrigados a revalidar a autorização de residência junto da PVDE. Os locais mais conhecidos eram as Caldas da Rainha, a Curia, a Ericeira, o Estoril e a Figueira da Foz. Mas também Lousa de Cima, Luso, Vilar Formoso, entre outros, foram locais de acolhimento. Recorda a autora que os indocumentados, os refugiados considerados perigosos politicamente e todos aqueles que tinham os seus documentos caducados eram colocados nestes locais de permanência até que lhe fosse possível deixar o país.

É neste contexto que o estudo incide sobre uma cidade termal que se transfigurou em porto de abrigo, habitavam os seus hotéis, residenciais e casas particulares e foram mesmo para o Hotel do Facho, na Foz do Arelho. A autora estuda o abastecimento da região, os espaços habitacionais dos refugiados, como eram vistos os estrangeiros pela imprensa periódica local, são registados os depoimentos dos refugiados, e apurou-se quem eram e a sua proveniência.

Hotéis, pensões e casas particulares que acolhessem ou empregassem refugiados eram obrigados ao preenchimento de um Boletim de Alojamento de Estrangeiro. Os cafés mais frequentados eram o Café Bocage e o Café Central. Observa a autora que estes refugiados foram recebidos no meio caldense com compaixão e hospitalidade e desenvolve uma temática curiosa que foi o caso dos torneios de ténis promovidos por esses refugiados.

No Clube do Parque das Caldas da Rainha passa a disputar-se torneios e campeonatos de ténis, intervêm caldenses e refugiados. A cidade recebeu um novo impacto com esta prática, gerou teias de sociabilidade e de amizades entre a população local e os refugiados.

Nas conclusões, a investigadora recorda que a hospitalidade e a comiseração demonstradas pelos caldenses mantiveram-se na memória dos que por lá passaram para todo o sempre. Os anexos encerram a lista da relação dos estrangeiros e dos refugiados nas Caldas da Rainha, surpreenderá muita gente.

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