Sem utopias não se avança, e a democracia empobrece

Beja Santos: O estudo intitula-se “Utopia para realistas”, logo se incluindo a substância a versar “em defesa do rendimento básico incondicional, da livre circulação de pessoas e de uma semana de trabalho de 15 horas,  o seu autor é o pensador Rutger Bregman, Bertrand Editora, 2018. Começa por historiar o pensamento utópico e como ele regressa com vitalidade ao nosso tempo, daí ele parte para as dimensões da utopia que considera alcançáveis: porque devemos dar dinheiro a toda a gente, erradicar a pobreza é viável, quem deve beneficiar do rendimento básico, quem ganha com uma semana de trabalho de 15 horas, porque e como devemos eliminar os empregos da treta, quais os benefícios de circularmos todos pelas urbes de todo o mundo, a linguagem do progresso deve assentar em reformas, na meritócracia, na inovação, na eficiência, numa nova visão do estado social, na redefinição do conceito de trabalho. O autor sugere que olhemos à volta, há muitos utopistas por aí e quem o quer ser que desligue a televisão e se organize e mais, se os utopistas querem mudar o mundo precisam de ser irrealistas, irracionais e crentes no impossível. “Lembre-se: aqueles que defenderam a abolição da escravatura, o sufrágio das mulheres e o casamento entre pessoas do mesmo sexo também foram apelidados de lunáticos. Até a História provar que tinham razão”.

É uma narrativa aliciante, Rutger Bregman apresenta factos, tem argumentos comprováveis em cima da mesa. E tem convicções, veja-se só:

“É justamente por sermos mais ricos que nunca que temos hoje maneira de darmos o passo seguinte na história do progesso: atribuir a todas as pessoas, sem exceção, a segurança de um rendimento básico. É nisto que o capitalismo se devia ter sempre empenhado. Nós, habitantes da Terra da abundância, somos ricos graças às instituições, ao saber e ao capital social que os nossos antepassados acumularam para nós”. Pede ponderação na partilha para todos, estudos-piloto para dar a oportunidade de pensar de outra maneira, de descrever o problema de outra maneira, de aprender a viver de outra maneira.

A história do rendimento básico, pasme-se, já foi estimulada por presidentes norte-americanos de índole conservadora, como Nixon, ele faz uma descrição surpreendente desses factos. Lembra-nos o que é o PIB (a soma de todos os bens e serviços produzidos por um país). Nele não entram o voluntariado, por exemplo, porque o PIB é cego a uma série de coisas boas. Aliás, falando de doenças mentais, obesidade, poluição e crime, no que diz respeito ao PIB, quanto mais melhor. O PIB é indiferente à desigualdade, enfim, há que encontrar alternativas e pôr termo às mentiras da estatística. Como observa Bregman, o PIB foi idealizado num período de crise profunda e respondeu aos grandes desafios da década de 1930. Enfrentamos atualmente as nossas próprias crises de desemprego, depressão e mudanças climáticas, pelo que também nós temos de procurar um novo número e reconsiderar novas interrogações: o que é o crescimento? O que é o progresso? Ou, de forma ainda mais essencial, o que faz a vida valer realmente a pena?

A semana de trabalho de 15 horas aparece como pouco convincente, estudiosos e políticos de todas as proveniências não escondem o ceticismo desse cenário repleto de tempos livres graças às excelências do automatismo. Acontece que há provas irrefutáveis que revelam que trabalhar menos reduz o stress, as alterações climáticas, os acidentes, o desemprego, a emancipação das mulheres, as desigualdades e até o envelhecimento da população. O desafio utópico passa por sabermos o que pretendemos de uma vida com qualidade, encontrar resposta para a violência dos paradoxos do nosso tempo, como ele observa: “Em países com excesso de trabalho, como o Japão, a Turquia e, obviamente, os Estados Unidos, vê-se um número absurdo de horas de televisão. Até cinco horas por dia nos Estados Unidos, o que dá um total de nove anos de uma vida. As crianças norte-americanas passam à frente da televisão metade do tempo que passam na escola. A educação do século XXI deve preparar as pessoas para entrarem no mercado de trabalho mas também e acima de tudo para a vida. Somos capazes de lidar com a boa vida se tivermos tempo para isso”.

Não haja ilusões, a desigualdade vai continuar a aumentar, os ricos e os altamente qualificados vão continuar a cerrar fileiras, mesmo enquanto as povoações e cidades da periferia empobrecem cada vez mais. Os licenciados estão a mudar-se para cada vez mais perto de outros licenciados. Nesta utopia o futuro do capitalismo passará por redistribuir dinheiro, tempo, impostos e robôs. Bregman advoga o imposto mundial e progressivo sobre a riqueza, tal como Thomas Piketty. O cenário utópico complementa-se com a liberdade de circulação das pessoas, como ele enfatiza: “Abrir as fronteiras não é, obviamente, algo que possamos fazer do dia para a noite – nem deve ser. A migração descontrolada iria corroer a coesão social na Terra da Abundância. Mas é preciso não esquecer uma coisa: num mundo de desigualdades loucas, a migração é o instrumento mais poderoso do combate à pobreza. Como sabemos disso? Por experiência. Quando a vida na Irlanda, durante a década de 1850, e em Itália, na de 1880, sofreu uma recessão trágica, a maioria dos agricultores pobres partiram; assim fizeram também 100 mil holandeses entre 1830 e 1880 – todos com os olhos postos na terra do outro lado do oceano, onde as oportunidades pareciam não ter fim. O país mais rico do mundo, os Estados Unidos, é uma nação que se ergueu a partir da imigração. Agora, século e meio mais tarde, centenas de milhões de pessoas em todo o mundo vivem em autênticas prisões ao ar livre. Três quartos de todos os muros e cercas foram erguidos depois do ano 2000. Milhares de quilómetros de arame farpado separam a Índia do Bangladesh. A Arábia Saudita está a isolar-se dos vizinhos”. É preciso pois abrir os portões, enriquecemo-nos uns aos outros.

Um estudo aliciante e provocatório, é uma inspirada viagem pela história do rendimento e do progresso, parecendo indiferente à tradicional clivagem entre direita e esquerda, vai apoquentar todos aqueles que estão confiantes de que os seus quadros mentais gozam de convicções inabaláveis.

Leitura mais que recomendável.

 

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