Sinopse do romance “Um escafandrista nas nuvens”

Autor: Beja Santos

Berto é um septuagenário reformado, vive permanentemente ocupado, goza de boas amizades, mas tem três filhos a viverem de biscates e trabalhos precários. Para os ajudar, encontrou um filão inexplorado, lançou-se à obra com sucesso, escreve romances acima do nível da literatura de cordel dando esperanças amorosas a pessoas entre os 60 e 90 anos, são livros que se podem encontrar nos quiosques de jornais, tabacarias e papelarias, nas estações dos CTT, em livrarias de bairro, nas estações de comboios e aeroportos, são estes os locais onde os seniores procuram as mensagens de esperança do escritor Gil Santiago, um género de Paulo Coelho de terceira classe mas com lábia muito expedita.

É-lhe diagnosticado um cancro, Berto toma rapidamente decisões, convoca os filhos e notifica-lhes, no caso de um cenário de falecimento, como deseja que se faça a repartição de todos os bens. E vai contatando todos os seus amigos, lembrando os que desapareceram ou andam longe, rememora amizades perdidas, entram em cena aqueles que mais o estimam, Berto trata-se e continua a trabalhar, infatigavelmente. Aqui se explica o seu modo oficinal: do escritório ergue-se uma estante descomunal onde se perfilam dossiês com material auxiliar para os seus livros, ali há de tudo, desde a pasta dos sentidos pêsames, aos formulários para diferentes tipos de más notícias, recortes com histórias amorosas, recensões de livros que permitem a Berto e ao seu ajudante, Bernardo Catita, a fazer um mestrado em Literatura Moderna, a montar em continuidade esses enredos em que os seniores ganham esperança em dias melhores. No mínimo, escreve de três a quatro romances de amor por ano, o quinhão recebido vai diretamente para o bolso dos filhos.

Berto trata-se, cumpre disciplinadamente as instruções do seu médico, os perigos vão desaparecendo, torna-se doente crónico. Sem nunca desfalecer, Berto passa em revista os seus desastres afetivos, a sua atividade profissional ao longo de 50 anos, as causas a que se entregou e entrega, continua ativo em várias militâncias, é solicitado por academias de seniores, a par dos seus romances escreve livros sobre envelhecimento, fala da sua fé e dos seus projetos de cidadania, encontra-se regularmente com os seus antigos soldados guineenses, são almoços de bacalhau cozido com batatas e grelos acompanhados com laranjada, com muçulmanos é assim.

E, inopinadamente, Berto vive um romance de amor dentro dos seus romances, são acontecimentos que julgara impensáveis. Romance com intriga, ciúme, enganos e desenganos, pois claro. De forma resoluta, aceita essa graça, essa ironia do destino.

Numa enorme girândola, vamos conhecer e conviver com todo este mundo afetivo de Berto, as suas curiosidades gastronómicas, a decoração da sua casa de homem solitário, serão convocados protagonistas que lhe dão ânimo, que aceitam as suas confidências, uns detestam as lamechices que ele escreve, sem prejuízo de reconhecerem o seu labor para manter os filhos com uma vida com mais qualidade, outros há que sabem que Berto seria capaz de escrever melhor, não tivesse que recorrer àquela ferramenta que lhe traz proventos, magros mas constantes.

E há os sonhos em que volta e meia aparece um escafandrista que se intromete na vida daquele canceroso que com um passo de capote afastara diligentemente a morte. Do pélago dos oceanos, o escafandrista viajará pelos céus, são sonhos que trarão uma maior aceitação da vida, descobrirá uma nova fórmula da alegria, uma reviravolta que será aproveitada para novos romances, Bernardo Catita sente-se entusiasmado com os recursos advindos da chegada desse inoportuno escafandrista que tem mais histórias que as que estão depositadas naqueles dossiês da estante descomunal, onde se guardam segredos para o copy paste, o estilo do mundo desses seniores sempre ávidos de boas notícias para os seus corações. Será assim que aquele escafandrista vai pôr Berto nas nuvens.

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