Todos os Poemas São de Amor, por Manuel Alegre

 Beja Santos: Antologia e nove poemas inéditos constituem a substância da obra mais recente de Manuel Alegre, Publicações Dom Quixote, 2018, onde ficamos com indicações elaboradas pelo próprio do que ele aquilata sobre o seu lirismo que vai desde a Praça da Canção (1965) até aos títulos mais recentes. Tudo está praticamente dito sobre a obra do bardo, as suas temáticas que vão desde o exílio ao fado, o lirismo cortês, o goliardo pela sua sensualidade, o vilancete terso de quem domina os clássicos, a sua maleabilidade na métrica, desde o rigor das estrofes à mais ousada descontinuidade para louvar o favor supremo da dona… uma poesia insubmissa, uma atenção contumaz pela coisas da portugalidade, ninguém mais do que ele torceu, retorceu até deixar claro a épica camoniana, as naus e os nautas, ousando na contagem silábica e inovando aparatosamente no tratamento da métrica, a ordem rítmica em permanente reformulação, prova provada de que domina como grão-mestre a poesia de combate em todo o seu valor literário, didático e nunca panfletário, por detrás de toda esta poética porta-estandarte está o prazer inexcedível de cantar em português, cronista do nosso tempo, inultrapassável no caráter pictural, falando dos deuses gregos como da poesia talhada para fado, na exaltação do amor militante, remontando às origens da lírica portuguesa como no poema «Uma flor de verde pinho».

Alegre é portador de uma reflexão abrangente sobre toda a nossa História, adverte para naufrágios, exalta a vida, é um cantor do mar e da maresia e ninguém como ele esculpiu a dor profunda daquele tormento desnecessário que foi a guerra colonial no poema «Nambuangongo Meu Amor».

Por vezes avassala-nos pela prosopopeia, que anima os elementos da Natureza, dirige-se possante, enaltecedor, às cantigas de Maio, às baladas em Lisboa, elementos da Natureza que irão vazar num dos mais extraordinários poemas do nosso tempo: Senhora das Tempestades, que assim culmina:

“Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso

tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e agonia

galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso

e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.

Tudo em ti é magia e tensão extrema

Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos

batem as sílabas da noite no coração do poema

Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.

Tudo em ti é milagre Senhora da energia

quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades

batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia

ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades.”

Poeta arturiano, cronista, jogral, poeta da saudade e da aventura dos descobrimentos nesse Tejo, aventura desaguada, o mais clássico dos poetas da nossa contemporaneidade, épico e sensual, um supremo enredador daquilo que é muitíssimo culto com a veia popular. O último descendente de Camões.

 

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.