Um desafio maior para a cidadania em saúde: Reduzir as doenças não-transmissíveis

Beja Santos: Nunca como hoje se falou tão insistentemente em estilos de vida saudáveis, por todas as formas se faz a apologia da atividade física, se apela a viver sem o fumo do tabaco, a usar com a maior das moderações as bebidas alcoólicas e se chama a atenção para os benefícios que traz a redução do consumo de sal e de açúcar e a eliminação no nosso regime alimentar das gorduras trans. Há hoje evidência científica de que a adoção de estilos de vida mais saudáveis contribui para a redução ou recuo das doenças cardiovasculares, de certos cancros, das doenças pulmonares obstrutivas crónicas e da diabetes. Este conjunto de quatro doenças representa cerca de 90% dos óbitos e 84% dos principais problemas de saúde na Europa. O bem-estar das populações está posto à prova nestes estilos de vida e a redução destas doenças não-transmissíveis é, pela força das coisas, o cometimento de topo de toda e qualquer política de Saúde.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) insiste que está na hora de atuar, compete aos governos e à sociedade civil, aos órgãos representativos dos profissionais de saúde, às autarquias, aos grupos empresariais encontrarem modos de cooperação para reduzir o sedentarismo, as mais graves disfunções alimentares, ganharemos todos, será incrementado o bem-estar. No entanto para agir bem há que convergir estratégias para travar estas doenças não-transmissíveis em todas as etapas da vida humana. Sabemos que a União Europeia tem desenvolvido iniciativas paralelas às da OMS, desde os programas vocacionados para a atividade física até ao estudo de medidas que permitam à população sénior com multimorbilidade agir em prol da sua autonomia e gerindo mais adequadamente as suas doenças crónicas. As autarquias têm vindo gradualmente a ser mobilizadas: para tomar medidas que levem à redução da sinistralidade rodoviária; para criar espaços verdes, construção de ciclovias, encontrar melhor proteção para os peões, elas próprias fomentarem a atividade física e intensificarem esforços com os estabelecimentos escolares para prevenir a obesidade infantil e juvenil.

Como é evidente, cada um daqueles grupos das grandes doenças transmissíveis precisa de atuar: em concreto, é o que fazem entidades como o Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva Prof. Fernando de Pádua ou a Fundação Portuguesa de Cardiologia; no que toca à diabetes, é relevante a atividade da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal; no tocante às doenças respiratórias, tem vindo a crescer a notoriedade da Fundação do Pulmão ou de associações de doentes como a RESPIRA; e quanto ao cancro, continua com grandes credenciais a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Isto sem desmerecer o magnífico trabalho do corpo de investigadores, da investigação farmacêutica, da formação médica, da intervenção da farmácia comunitária e do corpo de enfermeiros. Só que os gastos em Saúde atingem dimensões tormentosas e dois desafios primordiais são hoje irrecusáveis: as parcerias do Governo com aqueles que podem reduzir as doenças não-transmissíveis; e a implementação de programas específicos para a redução do tabagismo, para a redução do consumo nocivo do álcool, para a sensibilização de regimes alimentares que apontem para uma vida saudável, para o tratamento das doenças cardiovasculares e da diabetes, do cancro e das doenças respiratórias. É sobre este universo em movimento que iremos falar em próximos apontamentos, começando logo com a literacia em saúde para esse grande grupo que tanto nos aflige da diabetes.

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