Um detetive amador e original que fez época: Albert Campion

Beja Santos: Margery Allingham foi uma grande senhora da literatura de crime e mistério, nomeadamente nas décadas de 1930, 1940 e 1950. Estrada para a Morte, agora dada à estampa pela Porto Editora, é o primeiro romance em que aparece Albert Campion, um detetive a vários títulos original pelos seus processos de investigação.

Esta escritora londrina dominava, de acordo com os padrões da época, a mestria do suspense e sabia urdir esquemas relativamente plausíveis de investigação, agarrando o leitor pela intriga e sofisticação dos personagens. Desta feita, temos um juiz norte-americano que tem o firme propósito de pôr fim à atividade criminal de um bando, de nome Simister, que opera em Nova Iorque; foi alvo de várias tentativas de assassínio, resolveu atravessar o Atlântico e pedir ajuda a um detetive amador de sangue nobre. O sufocante processo de revelação do sinistro personagem que comanda o terrível gangue decorre numa tranquila aldeia britânica na pantanosa costa de Suffolk. Estrada para a Morte foi lançado em 1930, anunciou a bem-sucedida carreira de Campion e por arrasto contribuiu para a consagração de Margery Allingham.

Como em tudo da literatura, um policial tem que ser uma história bem contada, tudo vai começar no decurso de uma viagem transatlântica, são-nos apresentados o juiz Crowdy Lobbett, e o seu filho, de nome Marlowe, e, pela primeira vez, ouvimos falar no espaventoso tagarela que dá pelo nome de Ali Fergusson Barber. Em Londres, o juiz e o filho contactam Albert Campion. E surgiu a alternativa de pôr o juiz a recato, em Mystery Mile, assim apresentada: “Na cinzenta costa pantanosa de Suffolk, a 15 milhas de uma estação de caminho-de-ferro, e ligada à terra principal só pelo Stroud, uma estreita estrada de terra batida, situa-se a aldeia de Mystery Mile, rodeada por intransitáveis charcos de lama e salinas cinzento-esbranquiçadas”. O leitor é confrontado com o frenesim e o viço de Albert Campion, envolveu-se na proteção do velho juiz, entra-se na atmosfera de Mystery Mile, ouve-se falar nos Sete Assobiadores, inopinadamente o vigário mata-se com um tiro de caçadeira, aparentemente não há qualquer relação entre o inesperado suicídio e a tenebrosa Simister. A jovem Isopel começa a dar sinais de atração por Marlowe, Albert Campion anda a investigar os documentos do vigário, a trama adensa-se com uma carta deixada pelo suicida.

Também inopinadamente surge outro personagem que viajara no transatlântico, Fergusson Barber apresenta-se como vendedor de quadros. O juiz desaparece, ir-se-á escarafunchar todo o território à volta, é uma intriga de endoidecer, tudo se encaminha para um desfecho mirabolante, numa choupana dentro dos pântanos, Albert Campion espera pelo maquiavélico organizador de todos os acontecimentos que envolvem a pessoa do juiz e o turbilhão de acontecimentos que estão a ocorrer naquele ponto da costa de Suffolk. Quem acaba de chegar para o desfecho final é o representante de uma das mais inteligentes organizações do mundo, travam amistoso diálogo. O diabólico personagem é pesporrente e vaidoso: “Eu estou tão seguro, sou tão respeitado, e permaneço tão tranquilo como qualquer outro homem com as minhas posses. Vou aonde me apetece, vivo como quero. Tenho um palacete com um jardim suspenso no Bósforo, a mais deliciosa casa estilo Queen Anne em Chelsea”. Bem pronto a liquidar Albert Campion. Ferido, o inteligente detetive particular foge pelos pântanos enquanto o assassino dispara várias vezes e tenta a perseguição. É então que Margery Allingham redige um texto de envergadura, inesquecível:

“Ao dar o terceiro passo, uma súbita sensação de perigo prestes a acontecer assolou-o e tentou em vão impelir o seu peso para trás. Um momento antes teria conseguido, mas a turfa debaixo dos pés era escorregadia.

Cambaleou e mergulhou em frente, sobre os três pés de terra solta, em direção à zona de lodo movediço que ficava adiante – essa mesma faixa, de aspeto mais claro e mais macio que o resto. Inconsciente do perigo iminente, lutou para se endireitar, sendo o seu único receio que o alibi lhe fosse mais difícil de estabelecer, agora que tinha as roupas ensopadas com água do mar e lodo.

A toda a sua volta, o logo gorgolejava na sua calma fala natural. A chuva continuava a cair. Encontrava-se sozinho entre a terra e o céu.

Lutou desesperadamente para escapar, dando de súbito conta de que o lodo já lhe ultrapassava a cintura. Bateu denodadamente com os braços e não conseguiu tocar em nada, a não ser no terreno fétido.

O lodo gorgolejava e esparrinhava. Pequenos riachos de água corriam sobre ele. A chuva parou. As cãibras torturavam-no, mas não se atrevia a relaxar os únicos músculos que o suportavam acima do paul.

Lá no alto, as nuvens erguiam-se. A cauda da tempestade que lhes passara por cima, dispersara-se. A noite ficou um pouco mais luminosa.

Afastada dele não mais que um pé, via-se uma espessa linha branca, irregular, mais implacável que o próprio lodo, era a maré.

Observou-a. Cada centelha de vida que ainda lhe restava concentrava-se na luta contra esta derradeira e mais mortal ameaça. Retraiu-se um pouco, somente para se lançar de novo em frente até cerca de uma polegada da sua cara, aspergindo-o com salmoura.

Forçou cada nervo a lutar dentro de si. O seu gosto delirante assustou as aves selvagens e ecoou, um brado de morte. As ondas retiraram-se mais uma vez e, agora, regressavam a espumar, a rir, inundando-lhe a boca”.

Uma descrição primorosíssima e francamente atual, ninguém acredita que se escrevesse assim acerca de noventa anos.

Obra francamente recomendada para os aficionados da história da literatura de crime e mistério.

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