Um olhar audacioso, perspicaz, sobre os fundamentos da identidade europeia

Beja Santos: Chama-se “Breve História da Europa”, por John Hirst, professor universitário australiano, Publicações Dom Quixote, 2019. Interroga por onde passa a singularidade europeia, o que torna a civilização europeia ímpar e como se impôs ao resto do mundo. É um livro didático, provocador, otimista. Começa logo por dizer que a nossa civilização se fundou na cultura da Grécia e Roma antigas, no Cristianismo (que é um fruto heterodoxo da religião dos judeus) e na cultura dos guerreiros germanos que invadiram o Império Romano. Portanto é uma civilização que nasceu de uma improvável mistura de ensinamentos clássicos, Cristianismo e germanismo. E explica-nos igualmente a herança destes pais fundadores, a filosofia, o berço da democracia, no caso da Grécia; a arquitetura, a simbiose e reelaboração da cultura grega, o direito, o espírito de aculturação, daí a receção do Cristianismo; e um germanismo que começou pelos Francos e que se estende das ligações entre o poder imperial do chamado Sacro-Império com a Igreja, até à Reforma e ao Renascimento; o Renascimento abre novas linhas de rumo, rompeu com o mundo medieval, confrontou-se com a Reforma, abriu espaço à revolução científica, aos ensinamentos de Da Vinci, Galileu, Kepler, Giordano Bruno, Newton, entre outros.

Com o Iluminismo, nasce uma nova ideia, o progresso. “As ideias do Iluminismo tiveram a sua primeira prova de fogo na Revolução Francesa, em finais do século XVIII. A Revolução Francesa não trouxe uma nova era de Iluminismo, trouxe, sim, um banho de sangue, a tirania e a ditadura. Mas antes de tal acontecer, largou amarras o movimento romântico. O Romantismo acreditava nos sentimentos, nas emoções, na totalidade das paixões. Foi um movimento à escala da Europa, mas mais pujante na Alemanha. Os alemães defendiam que não se pode falar do Homem e da sociedade em abstrato, porque os homens diferem consoante o país. Somos modelados, diziam os românticos, pela nossa língua, pela nossa história. A razão universal, defendida pelos intelectuais de salão franceses, não era aceite pelos alemães. Os românticos alemães queriam saber como eram os guerreiros germânicos antes de se misturarem com a civilização, Roma e a cristandade. A mensagem desta conceção do Romantismo era que a civilização é artificial, é no âmbito da cultura popular que a vida é plenamente vivida. Este ponto de vista está muito enraizado desde então na sociedade ocidental, e teve manifestações exuberantes durante a década de 1960”.

As nações europeias formaram-se a partir de múltiplas invasões e conquistas, o papel do Império Romano foi predominante, como igualmente as invasões germânicas, o império de Carlos Magno, o reino dos Francos; a invasão islâmica alterou em profundidade a vida medieval e europeia, pois o avanço muçulmano conquistou terreno no Império Romano do Oriente e todo o Norte de África, chega à Península Ibérica, só uma pequena região na Cantábria lhes vai resistir, daí partirá a Reconquista. Diga-se em abono da verdade que a administração muçulmana nesta península tornou-se a parte mais civilizada da Europa, convém não esquecer que os árabes trouxeram a cultura greco-romana para Espanha, toleraram outras religiões. Do Norte da Europa vieram os últimos invasores, os Vikings. O fundamental é que a cultura de matriz cristã resistiu, a despeito das colónias vikings, dos normandos conquistadores, a partir do século X as incursões na Europa pararam, o continente, imbuído pela cristandade, reagiu através das Cruzadas. E a Europa não deixa de entrar em sobressalto com a queda de Constantinopla, virão novas ameaças que contingentarão a vida do Leste europeu.

John Hirst passa em revista as formas de governo desde o período greco-romano, não esquece o que se passou em Inglaterra com a Magna Carta e depois a Revolução Francesa, a porta aberta para as revoluções liberais. Mas a História da Europa também se fez com imperadores e Papas, com línguas universais e nacionais. No Império Romano as duas línguas universais eram o latim e o grego. Depois predominaram vários grupos linguísticos. Logo as românicas, depois as germânicas e depois as eslavas, isto já não falando dos países solitários cuja língua não está relacionada com nenhuma outra, caso dos albaneses, dos húngaros e dos finlandeses. Formaram-se países plurilinguísticos, caso da Bélgica e da Suíça. Hoje tende-se a esquecer o papel do latim que teve uma importância primordial na cultura de caráter europeu: fez emergir a literatura em língua vernacular, o Renascimento restaurou o latim, os nobres e senhores eram educados em latim e muitas vezes em grego, o latim era a língua comum dos intelectuais e dos religiosos.

O historiador lembra-nos o povo comum, a gente que trabalha a terra, que se revoltou contra as classes superiores e abriu portas às revoluções. Não se pode entender a democracia em Inglaterra sem estudar os métodos agrícolas, como, mais tarde, não se pode entender a pujança da industrialização sem a fuga dos campos, o emparcelamento que levou tantos camponeses para as minas e as fábricas. Atenção, no caso inglês, houve sincronia entre a Revolução Industrial e a Revolução Agrícola. “Em vez de algodão e lã, fiados e tecidos nos casebres dos trabalhadores agrícolas, a atividade foi transferida para fábricas onde novos eventos, movidos primeiro por noras e depois por motores a vapor, realizavam trabalho”. Outra singularidade inglesa: a Revolução Industrial foi proporcionada pelo facto de o país ter um parlamento que controlava a governação. Com a industrialização, a turbina do desenvolvimento tornou-se imparável, criou um novo quadro político, novos sistemas económicos e financeiros, um mercado competitivo, a febre tecnológica aguçada pela globalização e a digitalização. E John Hirst pergunta o que é que a Europa tem na sua identidade que a torna modelo para os outros continentes: foi a primeira a industrializar-se, continua a ser o continente que depois de se ter tornado palco de duas guerras mundiais monstruosas, reencontrou coesão e diálogo. Gere lentamente as suas lacunas demográficas, absorvendo populações de outros continentes. É uma civilização com origens diversas onde pontifica o Iluminismo que tornou o continente empenhado nos “valores universais dos direitos humanos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana”. Mesmo as ameaças nacionalistas não conseguem demover o sonho de forjar um destino comum. Leitura imperdível.

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