Um romance terníssimo sobre os labirintos da memória de um velho

 

Beja Santos: Pode-se começar por dizer que o romance A Memória da Árvore, de Tina Vallès, Publicações Dom Quixote, 2018, é merecedor de todos os encómios de uma literatura inspiradora, engendrada com uma economia impecável do verbo, e onde cabem a festa da vida, a ternura da relação de avô com neto, a palpitante relação de uma vida de família onde se espraiam três gerações; mas o que irá avultar ao longo de sucessivos textos elaborados com esse máximo controlo verbal, é o peso da nossa memória em que um salgueiro-chorão é omnipresente como fio condutor – é a epifania da palavra na atividade sublime de como se luta contra a perda da memória.

Tudo começa com a mudança, Jan e os pais veem chegar os avós Joan e Caterina, deixaram Vilaverd e instalam-se em Barcelona. Tudo muda: chega o salgueiro-chorão, o avô vai buscar o menino à escola, as perguntas desmultiplicam-se, os cinco personagens têm direito a uma permanência no palco, a criança é o narrador, diz-nos que o avô era relojoeiro, ele demora muito pouco a fazer as palavras-cruzadas, é um avô que assusta o menino quando está em silêncio, os pais do menino estão a habituar-se à mudança, e prestes a que esta se dê por consumada, o menino sonha: “Sonhei que o meu avô estava a dar corda ao meu relógio da sala de jantar. Ao princípio, fazia como sempre faz, com calma e delicadeza, com aqueles seus dedos de avô relojoeiro. Mas, pouco a pouco, começou a dar corda cada vez mais depressa, mas para isso precisava de apanhar balanço, utilizava os pés, e, à medida que os ponteiros giravam e giravam na esfera do relógio, lá fora era alternadamente de noite e de dia, como se realmente o tempo dependesse do velho relógio da sala de jantar”. Deu-se a mudança, vamos saber o que está a mudar no quotidiano, sobrelevam as conversas do avô com o neto, este come esfaimado o pão saboroso que veio de casa e o avô replica que tinha muita fome quando era novo, o avô ensina a olhar e a ver. O avô conta histórias, intercala com o pai, gosto de contar fábulas, a história da cigarra e da formiga.

O menino continua a sonhar, volta à terra dos avós, as árvores estão omnipresentes. O menino regista as conversas dos adultos, reaparece o salgueiro-chorão. E os pensamentos de Jan ganham um fulgor poético: “Cá em casa, quando estamos contentes, todos somos reis. Meu rei, como é que te correu hoje o dia? Minha rainha, onde é que pus o telemóvel? Já fizeste os trabalhos de casa, meu rei? A minha mãe só chama assim ao meu pai e a mim. E o meu pai só lhe chama rainha a ela. Eu, para já, não chamo ninguém assim, porque não me sai, mas agora eu gostava de o saber dizer como eles, os grandes, de modo que até parece ser a única palavra a ficar bem ali e não outra. Agora eu gostava de saber tratar assim os outros e acabar a forma de manter os nossos tronos para sempre”.

A história do salgueiro-chorão é constantemente adiada. E o menino sonha que está em casa dos avós, ele transforma-se no relógio que não quer contar o tempo nas mãos do avó. Finalmente, Vilaverd é cenário, Jan foi passar um fim de semana a casa dos avós do amigo Moisés, fala-se da amendoeira do Moisés, Jan fica a saber qual fora o lugar do salgueiro-chorão, na praceta principal que agora está reduzida a cimento. E passeiam na praceta principal.

Em Barcelona, começam a ser registados os esquecimentos do avô: “Pouco a pouco o meu avô vai-se esquecendo de tudo, vai-se apagando tudo o que ele viveu e tudo o que aprendeu. Parece que é uma doença, e que não tem cura. Há anos que a tem e é medicado para a travar, porque se pode fazer com que seja mais lenta. Os esquecimentos do meu avô têm nome de doença”.

Assim se esvaziou a casa de Vilaverd, os seus pormenores passaram para a casa de Barcelona, chegou o relógio de cuco. As conversas entre avô e neto prosseguem, parecem estar a mudar de dimensão: “Se os meus pais soubessem tudo o que me pergunta o meu avô quando estamos a vir da escola, de certeza que ralhariam comigo. Mas não entendo como funciona a doença dele, como se perde a memória, como se nos pode esvaziar a cabeça de tudo o que vivemos e recordamos, e preciso de respostas”. E o avô dá-lhe a resposta mais meiga do mundo: “Em vez de guardar na memória da cabeça, guardo na do coração, porque esta não se apagará”. E o avô volta a prometer que irá falar no salgueiro-chorão. Jogam dominó e o avô dá um beijo na testa de Jan, explica-lhe que a única culpada é a doença.

As pequenas coisas do quotidiano ganham nova dimensão, mas ainda é o avô quem põe a mesa, a avó vai pondo os objetos a jeito para não haver confusões, a avó é subtil, aproveita-se da ausência do avô para pôr tudo no seu lugar. A história é permanentemente comovedora, sendo esta narrativa uma pura ficção aborda uma realidade que nos toca no íntimo, é tudo delicado, até os silêncios são delicados, o avô já consertou o relógio de cuco, vive um tanto ensimesmado, e confessa ao neto: “Eu olho para mim no espelho todos os dias, muitas vezes. Percebi então que ele se calava porque estava à procura das palavras para dizer as coisas pelo seu nome. Todos os dias me reconheço. E reconheço-vos a todos. À avó, à mãe, a ti e ao pai. E de cada vez me custa mais”.

Aquele avô começa a fugir dos espelhos. De novo, na praceta principal de Vilaverd se fala no salgueiro-chorão, agora uma placa de cimento, um relâmpago tê-lo-ia calcinado, a sua morte trouxera-lhe a cura de uma pneumonia. “O meu avô diz que um cepo é uma árvore com a memória a descoberto. O cepo do seu salgueiro-chorão ficou à espera no meio da praceta até o meu avô poder sair à rua e sentar-se ao sol para acabar de recuperar. Sentar-se num cepo é como entrar dentro de uma árvore e ver tudo o que ela viu, parar o tempo e olhar para dentro, dentro dela e de ti”. Agora o neto revivia toda esta história em nome do seu avô. E a narrativa findou sem ter aparecido uma carta: “Se a minha vida fosse um romance, ao outro dia da morte do meu avô, a minha mãe, ou talvez a minha avó, dar-me-iam uma carta dele cheia de conselhos e com um adeus bem emotivo. E o meu avô está vivo, ainda. O meu avô não escreveu nenhuma carta, porque há uns meses que se despede de mim aos poucos”.

Nunca a simplicidade em literatura se esmaltou em tanta emoção, em tanta exaltação das coisas verdadeiras. Brilhantíssima, esta Tina Vallès!

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