Um verdadeiro clássico da literatura de crime e mistério: Gaston Leroux

Beja Santos: Em boa hora a Coleção Vampiro pôs à disposição dos aficionados deste subgénero literário uma das obras fundamentais do período fundador da literatura de crime e mistério, “O Mistério do Quarto Amarelo”, Livros do Brasil, 2019. Este romance, o primeiro êxito literário de Gaston Leroux, marca a estreia do repórter-detetive Rouletabille, cujas façanhas irão ser várias vezes adaptadas ao cinema. Pouco depois deste seu primeiro êxito, o parisiense Gaston Leroux publicou a sua obra mais famosa, “O Fantasma da Ópera”.

Este clássico tem uma atmosfera que será explorada por outros mestres literários como Ellery Queen ou Edgar Wallace, atmosfera essa que surge um tanto subtilmente numa das histórias de “Sherlock Holmes”, de Conan Doyle: uma morte num espaço fechado, coisa mais intrigante não pode acontecer, houve crime e não há indícios da escapadela do assassino, terá entrado mas não se sabe como saiu. No quarto amarelo, a filha de um grande investigador fecha-se por dentro, ouve-se um ruído de luta, um disparo, há gritaria, quem a tudo isto assiste impotente vai derrubar a porta e encontra-se a mulher caída numa poça de sangue, isto quando a porta estava trancada e a janela gradeada. Como é que o atacante escapou? Entra em cena um jovem, um muito jovem repórter, Joseph-Joséphin – mais conhecido como o detetive Rouletabille –, que irá desvendar o tremendo enigma. Percebe-se como este livro, apesar de todas as rugas que o tempo impõe, goza de popularidade e provoca entusiasmo à leitura: primorosamente escrito, um quase rival de outros autores da época, como Alexandre Dumas, Maurice Leblanc, Paul Féval ou Ponson du Terrail, onde se conjugam racionalidade/dedução e todo o edifício instrumental que marca o apogeu científico das sociedades mais evoluídas da transição do século, não é por acaso que o quarto amarelo está ao lado de um laboratório.

Rouletabille ainda não tem dezassete anos, ganhava a vida na imprensa, já tivera êxitos detectivescos clamorosos. O narrador, que se estreara na barra dos tribunais, conhecera o jovem prodígio num café, os dois acompanhar-se-ão a desvendar o mistério do quarto amarelo. É uma escrita desafogada, desenvolta, umas vezes parágrafos curtos, acelerados, outros cheios de evidência, explicativos, cultivando o pormenor. As investigações apuram que há marcas de sangue, pegadas, desarrumação do quarto, como saiu o assassino nada se apura. Próprio do tempo, a ação decorre num velho castelo onde se erguem ainda ilustres pedras da época feudal. Do passado chega-se à envolvente do progresso, da ciência mais avançada. O pai da vítima é o renomado professor Stangerson, já veio aureolado da América com o seu livro A Dissociação da Matéria pelas Ações Elétricas. “O professor, que poderia, se quisesse, ganhar milhões de dólares explorando ou deixando explorar duas ou três das suas descobertas químicas relativas a novos processos de tintura, não se queria servir dos seus dons maravilhosos”. A jovem Stangerson, a vítima do quarto amarelo, é sua filha, assim descrita num bom recorte naturalista: “Vinte anos, adoravelmente loira, uma tez de leite, irradiando uma saúde divina, Mathilde Stangerson era uma das mais belas raparigas casadoiras do velho e do novo continente”. Muita gente se sentia intrigada com a vida retirada de pai e filha, dizem-se devotados ao serviço da investigação científica. Agora, com trinta e cinco anos, essa bela mulher continua solteira e namoriscada por Robert Darzac, Gaston Leroux desenha-o maravilhosamente para ele permanecer como um dos pivôs da descoberta das razões do crime. Rouletabille vagueia pelo exterior do castelo, percorre o laboratório das experiências da química com as suas mesas sobrecarregadas de tubos de ensaio. Numa chaminé descobre uma folha chamuscada com dizeres intrigantes, elementos que irão contribuir para o sucesso da investigação. O juiz de instrução interroga a jovem Stangerson, ainda em estado de choque, o resultado não é conclusivo. Enquanto decorrem estas investigações o inspetor Frédéric Larsan, com os seus métodos originais, também procura o móbil do crime. Sucedem-se os interrogatórios e as interpretações de como o assassino pôde sair do quarto amarelo. O inspetor Larsan atira-se a fundo contra o senhor Robert Darzac, andam todos numa motivante caça ao assassino, que escapa sempre. A narrativa é aliciante, Gaston Leroux usa de um expediente que torna a leitura compulsiva, o detetive Rouletabille escreve as suas investigações num caderno, o mistério adensa-se, as peripécias sucedem-se, as pistas neutralizam-se. A jovem Stangerson por pouco não fora assassinada pela segunda vez. E assim chegamos à sala do tribunal, tudo aponta, segundo o inspetor Larsan, para a culpa de Darzac. É na sala de audiências que Rouletabille faz declarações surpreendentes sobre a vida dos Stangerson na América, país onde residia um criminoso de nome Ballmeyer, que usava de mil disfarces, há uma história surpreendente que ele vai contar, a sala de audiências segue a sua narrativa com grande emoção, a denúncia do assassino é arrasadora, sente-se perfeitamente a herança de Conan Doyle e de Edgar Allan Poe, outros pais fundadores, o quadro explicativo desafia todos os mecanismos da lógica, o desvendar do drama tem algo de rocambolesco mas também de arrepiante, o que se pode garantir ao leitor é que estamos diante de um esplêndido romance digno de ser contado como um dos pergaminhos do subgénero literário que deve constar da estante de todos os aficionados. Mais de 110 anos depois de ser dado à estampa tem a qualidade suficiente para agarrar o leitor do princípio ao fim. E como em toda a literatura, o que prevalece é haver sempre uma história bem contada, mesmo que os mecanismos da lógica ultrapassem as expetativas de quem se interroga sobre o porquê do crime e a sua autoria.

 

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