Uma festa de homenagem a Alexandre O’Neill

Beja Santos:

Poeta (e um dos maiores, na segunda metade do século XX), artista surrealista, cronista e publicista multifacetado, deixou marcas indeléveis no teatro, na sátira e outras coisas. Continua a ser profundamente estudado e tem um público cativo que se rende à desconstrução que impôs no discurso poético, foi olimpicamente esquecido pelos prémios literários, passou a vida discretamente a gozar com os requebros da gente que buscava a fama, ironizou, foi sumosacerdote do sarcasmo, possuía um olhar agudo para a sociedade em trabalho de parto, quando o consumo passou a tomar conta dos valores nacionais, não lhe era difícil essa acuidade visual, ele que trabalhava para a publicidade, e com que talento.

Acaba de sair um conjunto de importantes ensaios sobre o seu trabalho poético intitulado “E a minha festa de homenagem?”, com organização de Joana Meirim, tinta-da-china, 2018. Ele não gostava que houvesse exegetas e explicadores a entreporem-se entre as suas obras e os seus leitores, quem o estuda prega-lhe agora esta partida, analisando vertentes da sua obra literária, deixando para outros obrigação de estudar alguém que foi profundamente influente no surrealismo e nas artes plásticas.

Fala-se muito nos mestres de O’Neill, aponta-se logo Nicolau Tolentino e Cesário, tudo é verdade mas fica muito atrás da sua originalidade do recorte e estrutura poética, do palavreado que construiu e reconstruiu, um só exemplo:

No sumapau seboso da terceira, / contigo viajei, ó país por lavar, /

aturei-te o arroto, o pivete, a coceira, / a conversa pancrácia e o jeito

alvar. // Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha; / entornado

de sono, resvalaste pra mim. / Mas também me ofereceste a cordial

botelha, / empinada que foi, tal e qual clarim!

 É a consumação do prazer da sátira, de alguém que seguia de perto o «país pobrete e nada alegrete» que entrou em mudanças antes e depois da revolução de abril de 1974. Um dia confessa-se:

“Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou certos momentos, por aliviar, aliviar os outros e a mim primeiro da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer para dias mais verdadeiros.”

É uma profissão de fé da libertação da retórica da “poética poesia”, do ajeitamento das coisas do quotidiano no verso e reverso, confessando-se amiudadas vezes de indisciplina, de ser um poeta enxundioso, batendo assim com a mão no peito:

Bem sei que tenho sido, não poucas vezes, derrotado pela pressa,

que me espojo na anedota ou a embalo

na folha-de-flandres da conversa,

bem sei que muitos dos meus versos

nem para atacadores.”

Era exigente a remover o empertigamento, a dosear a pilhéria, a fugir à ironia desnecessária, apesar das queixas que fazia poesia com o pontapé para a frente e com a tal enxundia, era um lirismo permanente a interpelar o público e daí a sua rejeição, insista-se, de que não apreciava de haver mediadores entre o que escrevia e quem o lia. Aliás, um dos autores de textos afirma claramente que um dos papéis maiores cabe ao leitor, figura que se distingue do crítico ou exegeta, porque o verdadeiro autor relaciona-se amorosamente com o texto, é um ato de amor demorado, mais intimidade do que paixão, o que só é possível porque esta poesia é relacional, de proximidade, interroga outros, interroga-se como a um outro, é uma arte relacional que não teve rival entre os poetas seus contemporâneos. Com a sua afabilidade e os olhos virados para o evento quotidiano, questionou-se em permanência, a tal ponto que um outro autor numa peça intitulada “Um Adeus Derradeiro de Alexandre O’Neill” homenageia assim o que ele escreveu em tom baritonal, revelando a sua falta de alinhamento, a sua verve inclassificável:

“Quem me dera que,

para pôr os pontos nos iis,

sobre o muito que de mim pr’ai se diz,

sobre mim não tivera eu de escrever.

E, bem pior seria, se para o fazer,

tivesse de fazê-lo em alexandrinos… o’nis.”

E quase como uma despedida, em total desprendimento:

“«Que quis eu da poesia?»

Nunca me passou pela cabeça ser poeta

em dó maior.

Nunca pretendi ser mais um poeta

dessa poesia tipo erudita, como se diz

da música,

sempre muito bem acompanhada

por coros e fagotes,

e, obviamente, acompanhada também

por infinita e enluvada companhia

de magotes de gente.

Não, nunca a pretendi.”

Bela homenagem para um inovador da fórmula poética, entre os maiores, uma belíssima obra cuja leitura não se pode recusar.

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