Uma obra excecional: história íntima da humanidade

Beja Santos

“A nossa imaginação é habitada por fantasmas. Este livro é o resultado das minhas investigações sobre os fantasmas familiares, que nos tranquilizam, os fantasmas preguiçosos, que nos tornam obstinados e, acima de tudo, os fantasmas assustadores que nos desencorajam. O passado persegue-nos… Mas de tempos a tempos as pessoas mudaram de opinião a respeito do passado. Quer demonstrar como é possível, nos nossos dias, que os indivíduos ganhem uma nova visão tanto da sua história pessoal como de todo o registo de crueldades, incompreensões e alegrias da humanidade. Para termos nova visão do futuro, tem sido sempre necessário começar por ter uma nova visão do passado”. Assim começa a espantosa investigação de emoções que desagua nessa obra excecional “História Íntima da Humanidade”, por Theodore Zeldin, Texto Editores, 2017.

Um historiador social discorre sobre algumas das questões mais importantes e que mais interessam às gerações atuais, como a liberdade, a justiça, o poder, a sexo ou a gastronomia. Há mais de um século que a historiografia descobriu a vida quotidiana, Theodore Zeldin inquire mulheres de diferentes estratos e de diferentes itinerários socioprofissionais. E dá-nos uma razão: “Sabe-se o suficiente e já foi escrito o suficiente sobre o que divide as pessoas. A minha finalidade é investigar o que têm em comum. Foquei a minha atenção no modo como se encontram. Sob o meu ponto de vista, a busca de novos e velhos tipos de relações, tanto próximas como distantes, tem sido a preocupação humana mais importante através da história. Quando os indivíduos olharam para lá do seu ambiente familiar, quando aprenderam a ler e a viajar, descobriram que são muitos os estrangeiros que partilham das suas emoções e interesses. Agora que, pela primeira vez, uma das principais prioridades da humanidade é a melhoria das comunicações, nenhuma vida pode ser considerada como inteiramente vivida se não beneficiou de todos os encontros de que é capaz. Todas as descobertas científicas são inspiradas por um programa semelhante e por um encontro de ideias que nunca antes teve lugar. Acontece o mesmo com a arte de fazer da vida algo de significativo e de belo, o que implica encontrar ligações entre o que parece não ter qualquer espécie de ligação, unindo pessoas e lugares, desejos e memórias, por intermédio de pormenores cujas implicações passaram despercebidas”.

E assim começa uma longa digressão em que se exulta a esperança, a suculências das conversas, a força que possuem as raízes da nossa identidade, como se pode ficar imune à solidão, como se inventaram novas formas de amor, como as pessoas se libertaram do medo descobrindo novos medos ou como a curiosidade se tornou a chave para a liberdade, entre outras tão valiosas temáticas. Veja-se o que escreve a propósito da compaixão:

“Não obstante os relatos da maior parte dos jornais sugerirem que os humanos podem ainda continuar a ser tão cruéis e inconsiderados como sempre foram, não há dúvida de que houve um grande aumento de repulsa contra todas as formas de crueldade. A compaixão é uma estrela em ascensão mesmo que de tempos a tempos fique um pouco obscurecida no céu. A única compaixão aceitável no mundo que considera todos como tendo uma dignidade igual é aquela em que todos sintam que estão a contribuir com qualquer coisa e em que ambos os lados devem saber esgotar”.

Leitura galvanizante, alguém aclamou a obra como uma visão intelectualmente deslumbrante do nosso passado e futuro. Palpita nesta escrita uma erudição que convence que o saber é de experiência feito, que a intimidade da humanidade se enriquece com valores como a tolerância e que a viagem pode ser um elemento mobilizador para a completude do olhar:

“Depois da história das nações e das famílias, há uma outra história que precisa de ser escrita, a dos desajustados ou dos que se sentiram incompletos em qualquer delas, e que criaram novas afinidades muito longe do sue local de nascimento. Os viajantes têm sido uma nação de um tipo especial, sem fronteiras, e que começam agora a ser a maior nação do mundo. Hoje, em cada ano, temos mais de 400 milhões de pessoas a viajar entre os continentes. As personagens mais admiráveis da história das viagens são aquelas que foram mis úteis aos seus anfitriões. Uma viagem tem sucesso quando o viajante regressa como uma espécie de embaixador do país que visitou, tal como ator só consegue ter mais êxito quando penetra noutra personagem e descobre algo de si mesmo no papel que está a desempenhar”.

E Theodore Zeldin despede-se do leitor com apelo à bonomia e à riqueza que nos traz a compreensão e a serenidade: “Com um pouco de coragem, está ao alcance dos poderes de todos estender a mão a alguém diferente, escutar e tentar ampliar, nem que seja por uma minúscula fração, a quantidade de bondade e humanidade que existe no mundo. Contudo, é insensato fazê-lo sem recordar como os esforços anteriores falharam e que nunca foi possível prever com toda a certeza como irá reagir um ser humano. A história, com a sua infindável procissão de gente que passa e cujos encontros constituíram, na sua maior parte, oportunidade falhadas, tem sido quase sempre uma crónica de capacidades desperdiçadas. Porém, da próxima vez que duas pessoas se encontrarem, o resultado pode ser diferente. É essa a origem da ansiedade, mas é também a da esperança, e a esperança é a origem da humanidade”.

Leitura imperdível.

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