Ver com outros olhos a questão alemã com os seus demónios

Beja Santos: “A mais breve história da Alemanha”, por James Hawes, Publicações Dom Quixote, 2019, é um ensaio inevitavelmente polémico, assegura uma leitura estimulante, pois baseia-se numa tese arrojada, historicamente discutível, como não podia deixar de ser. O autor tem uma preparação universitária sólida e lançou-se num cometimento com carga explosiva: há mais de dois mil anos que naquele território que dá hoje pelo nome de Alemanha se digladiam, ou mal se conciliam, duas correntes, uma vincadamente europeia, outra onde se entremeiam tendências eslavas e onde pontifica uma mentalidade tipicamente prussiana. Para o autor, Trump e Putin cobiçam a Europa, querem vê-la desagregada, veem a vida facilitada pelas correntes mais radicais, oriundas sobretudo desse universo prussiano e mesclado de eslavo. Diz abertamente que a Alemanha é a nossa esperança derradeira no projeto europeu. Há, no entanto, que conhecer a sua história desde os primórdios, desde o mundo germânico. Júlio César progrediu as suas conquistas até às margens do Reno, conseguiu conjunturalmente aliados leais para Roma. “Os povos além Reno são declarados irremediavelmente bárbaros, hostis a Roma, a missão desta é clara: vigiar o Reno e cair-lhes em cima cada vez que tentem atravessá-lo”. Fez-se a romanização da Germânia, controlava-se todo o sudoeste da atual Alemanha. Em 160 d. C., construiu-se o Limes Germanicus, 560 quilómetros de fortificações e torres de vigia. Era a génese da Alemanha europeia, era um território que abrangia Colónia, Bona, Meno, Frankfurt, Estugarda, Munique e Viena de Áustria. Ou seja, grandes cidades das futuras Áustria e Alemanha nasceram com o Império Romano.

Este mesmo império irá entrar em desagregação, tribos germânicas invadirão o Império até este se desfazer no Ocidente. Não será por casualidade que os herdeiros de Roma serão os Francos, deste povo destacar-se-á Carlos Magno, foi ele o garante que a cultura da Europa romana fosse transmitida ao mundo medieval e deste a nós. Carlos Magno herdara um reino que abrangia praticamente a mesma área que as da Gália e da Germânia combinadas. Em 800 d. C., Carlos Magno foi coroado imperador romano. O Império do Ocidente estava de volta e a Germânia Ocidental era o seu centro de poder. Depois da sua morte, o império é repartido, depois de muitas reviravoltas, a Alemanha já não estava no extremo da Europa, situava-se no seu coração. É um tempo medieval de cerca de seis séculos pautado por conflitos intermitentes entre reis, nobreza e Igreja. É uma Alemanha em quem o Papado confia, nela ascendem dois grupos que terão um peso extraordinário nos tempos futuros: os Cavaleiros Teutónicos e a Liga Hanseática. Os Teutónicos possuirão um Estado germanizado a leste da Polónia cristã. No Báltico, prevalecem a Liga Hanseática e a Ordem Teutónica. Os acontecimentos da Reforma, no início do século XVI, voltam a colocar a Alemanha numa grande tensão, a Prússia e a Reforma política nasciam em simultâneo. A Alemanha descentrou-se, envolveu-se numa guerra sangrenta sem precedentes, a Prússia ganhou predomínio, o Sacro Império Romano fora abatido por Napoleão e criada a Confederação Germânica, em 1806. Vão seguir-se cinquenta anos em que a política externa alemã será determinada pela rivalidade entre a Prússia e a Áustria, surgirão intelectuais altamente influentes como Hegel e Marx, será o tempo da revolução falhada de 1848-1849, depois o poder cai nas mãos do chanceler de ferro, Bismarck, a Prússia vai derrotar a Alemanha, e com consequências devastadoras. Toda a Alemanha vai ficar à mercê da Prússia, Bávaros e estados do Sul estavam enfraquecidos e a Áustria derrotada. Fundou-se a Confederação da Alemanha do Norte, a Saxónia foi obrigada a juntar-se. Napoleão III pretende confrontar-se com o novo potentado, é derrotado, funda-se o novo Império Alemão. “O Império parecia perfeitamente concebido para que ninguém que não Bismarck conseguisse governá-lo”. À volta da nova Alemanha espalham-se novas crises, a Rússia contra os Turcos, o Império Austro-húngaro teme que Polacos, Eslovenos, Sérvios, Croatas e Checos entrem em revolta, Bismarck tem tempo de constituir uma Alemanha prussiana, quando abandonar o poder o Império está preparado para o crescimento industrial, larva nessa nova Alemanha uma hostilidade profunda ao Reino Unido. O que James Hawes pretende revelar é a disparidade entre a Alemanha Europeia e o que ele chama a Élbia Oriental, constituída pela Prússia e pelo território eslavo alemão. E vem a I Guerra Mundial, tudo abonava para que a Alemanha a ganhasse, possuía tecnologia de ponta, tanques, gás venenoso, lança-chamas, artilharia super-pesada, bombardeiros, submarinos, cedo a Rússia dá sinais de caminhar para a hecatombe. “Foi a estratégia prussiana que perdeu a guerra. Troçando da capacidade bélica anglo-saxónica e obcecada com a reorganização do nordeste da Europa, ela condenou a Alemanha à derrota a ocidente”. Desfeito o mito da invencibilidade prussiana, a Alemanha vai conhecer revoltas e motins violentos, virá a República de Weimar. Os tumultos não pararão, recrudesce o nacionalismo, as acusações ao Tratado de Versalhes, a hiperinflação e, fenómeno insólito, assiste-se à cultura de Weimar, pela primeira vez desde 1819, a cultura alemã via-se livre do absolutismo prussiano e da influência austríaca. É um tempo glorioso para as óperas de Kurt Weill e para o teatro de Brecht, para o grande cinema de Murnau e de Josef von Sternberg. E dá-se a ascensão de Hitler. O autor é polémico na sua observação: “Foram os votos da Élbia Oriental que abriram caminho a Hitler. Desde que os Britânicos entregaram a Renânia à Prússia, em 1814, o conjunto da Alemanha fora arrastado e deformado em benefício de uma agenda da Élbia Oriental. Em 1933, derrotada e amputada, a Élbia Oriental conduziu toda a Alemanha consigo para o abismo”. É a desforra da Prússia, Hitler vai manipular a corrente militarista até pôr os seus sonhos delirantes em marcha. E lembra o autor que as tropas soviéticas e americanas se encontraram nas margens do Elba, e depois as velhas fronteiras foram restauradas. Outro dado polémico, segundo o autor, Adenauer não confiava na Élbia Oriental, privilegiava os vínculos com o Ocidente. A RDA representará a história da Élbia Oriental num novo contexto repressivo. Mas em 1989, Gorbachev deixa a RDA entregue à sua sorte, cai o muro, Helmut Kohl apela à reunificação, a capital regressa a Berlim, a Alemanha reunificada torna-se na potência mais influente do continente, o Reino Unido apaga-se, deixa de intervir no continente, a França vive à sombra da sua antiga grandeza, temos agora o espetro de um populismo alemão, aparece como um fantasma da era prussiana-nazi. E finaliza o livro dizendo: “A Alemanha tem agora de recordar a sua verdadeira história. A Europa tem de responder, compreendendo que a época de 1871-1945 foi uma anomalia prussiana na história do país onde o culto do Estado, o zelo puritano e a cicatriz militarista sempre foram corpos estranhos. A Alemanha é a única esperança para toda a Europa. Tem agora de agir, e tem de ser tratada, como sempre deveria ter sido: uma terra poderosa no coração do Ocidente”. De leitura obrigatória.

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